Nas cores do mar e na festa do sol que te armazeno.
E se vida é fazer todo sonho brilhar, realmente meus sonhos brilharam ao teu lado.
Em toda lembrança não é preciso forçar a memória. O tom grave e alto das risadas, a mão delicada e bem lisa, os pés pequenos e as roupas estão ainda aqui. Em nós.
Meu maior medo, depois da despedida, é que tudo isso se despeça. Que um dia não lembre o som da tua voz, que um dia não conte tuas piadas direito ou troque teus bordões. Acho difícil, o que é bom perdura.
Enfim, hoje é teu aniversário, e de presente só posso te dar atitudes. Meu véio, queria que soubesses que estou fazendo de tudo para que o orgulho persista aí. Lembra, aquilo que sempre nos ensinaste?
Que poderíamos fazer o que quiséssemos, desde que deitássemos a cabeça no travesseiro e dormíssemos tranquilos. Posso dizer que tenho dormido por boas noites.
São tantas mudanças nestes três anos, que por vezes, todo o passado parece parte de um filme. Um filme bom, só nosso, onde a família tinha tantos dramas quanto aventuras.
Aí me lembrei de uma experiência muito boa, que mesmo que seja fruto do meu inconsciente não me tira a emoção: Quando em outra vida, sozinha, na chuva e perdida, fora de meu corpo, surgiu uma luz em uma esquina. E a luz era tu, meu véio. Dizendo que iria me proteger para sempre. Foi a sensação mais confortável que já senti.
E agora, mesmo que à distância, sei que a proteção é mútua. Cuido dos nossos aqui, e cuidas de todos nós de onde estejas. Todos nos cuidamos. Deixaste muitas saudades, muitos risos inacabados e abraços apertados.
Tua memória sempre viva e não há parede, poltrona, carro, camisa, pijama, perfume que possam acabar com essa lembrança.
Desculpa, mas hoje não vou lembrar do teu sorriso. Vou lembrar do choro. Aquele que de tão puro, saía destes olhos enormes sem nenhum disfarce. Aquele que era emocionado com qualquer beleza, qualquer sentimento nobre. Guardo teu choro lindo daqui. E não posso evitar o meu aqui.
Te amo muito, meu véio, meu bicho, meu magro, meu pipoca.
Feliz anevelsário.
Beijos, Mana.
o nome dele é tão idiota. que a mãe morta dele me perdoe, mas puta que pariu, que nome feio. tudo bem que os olhos compensam. e o caminhar altivo, quase torto de tão desinibido propositalmente. e os cabelos lisos e escuros. ok, vou voltar ao nome. o sobrenome RIMA. isso mesmo, do tipo padaria, tipo empresa falcatrua: castro e alencastro. parecem primos.
nome duplo e sobrenome que rima. que mais eu poderia odiar?
coisa cafona. coisa feia. coisa ridícula, coisa minha. mas o que eu mais queria era gritar aquele nome. nas ruas escuras, vazias, com poucas pessoas e muitos matos a serem podados.
chegar na tua cidade, meu bem.
chegar lá e perguntar para os bêbados se conhecem o menino das grandes histórias e do olhar desviado. o menino das mãos bonitas e voz baixa. o menino da risada que parece um ataque de asma. eles me apontariam caminhos, eu erraria todas as direções. iria percorrer paradas de ônibus e naqueles concretos eu sentiria a ponta de tuas unhas. iria pisar na grama e com sorte mataria umas formigas. que é para tirar a minha dor e colocar tudo nelas.
eu ia é botar a porra do meu bloco na rua, sair me proclamando a senhora de todas as verdades procurando meu homem de todas as mentiras. a tua cidadezinha fedida seria pequena demais para nossos egos, e por isso imagino um temporal sobre meus ombros. e nas casas de madeira pintadas erroneamente de azul bebê, naquelas cercas, naquelas calçadas tortas, naquelas paredes amareladas eu ia te sentir.
só que a voz sumiria. como aquela vez em que tivemos que apresentar um trabalho na faculdade, lembra? tua voz sumiu, ficou envergonhado. fiquei puta. então, seria exatamente assim.
eu na tua cidade. eu na tua cidade querendo gritar teu nome duplo com sobrenome de padaria. eu molhada, cansada, olhos borrados. sem voz alguma. como na faculdade. afônica pela presença de uma cambada de imbecis, testemunhando meu trabalho, minha vida.
quase chegaria no teu portão. mas sem encontrar o tom certo, meu corpo optou por calar. não dessa vez, ainda não.