19 julho 2010


Eu não tenho nenhum dente siso. Eles não nasceram e acho que dificilmente eles nascerão algum dia. Veja bem, tenho 26 anos, estou a um ano da idade em que todos morrem brilhantemente. Não farei parte desse grupo porque não sou imbecil. Aliás, dificilmente conseguirei admirar alguém desse grupo porque não consigo admirar quem se mata com idade inferior à minha. Estou aqui bem viva e não cogitei a morte como opção, então acho meio ridículo que encher o cu de droga ou cortar os pulsos seja considerada uma escolha inteligente.

Minha família e eu já mudamos de casa nove vezes e ninguém é militar para ter sido transferido. Fomos mudando porque precisamos, porque queríamos lugares maiores, melhores. Depois porque queríamos lugares mais baratos. Depois porque queríamos recomeçar. Se for contar as vezes em que eu fiz essa empreitada deliciosa que é encaixotar momentos, o número cresce para 12 ou 13.

Já morei com mãe-pai-irmão, mãe-padrasto-irmão, pai, mãe-irmão, mãe, sozinha, com namorado, irmão, e a melhor delas foi quando éramos realmente uma família. Acho que sinto falta de alguns momentos em todos os dias da minha vida. Mas não se pode olhar para trás, me disseram.

Então eu lembro com carinho, lembro com vergonha, lembro com saudades de meses e anos e horas e vem a sensação absurda que eu deixei muito para trás e ainda bem.

Foram muitas mesas em bares nojentos, com cervejas geladas e palavras soltas. Já bebi em lugares que não me trazem orgulho nenhum. Já beijei bocas que me dão asco. Já jurei situações que não queria lembrar.

Tive quatro namorados de verdade. O primeiro deles foi o menino que ninguém gostava, vítima de bullying supremo quando nem se discutia isso por aqui. Ele era bom, inocente e apaixonado. Hoje ele é casado e tem uma filhinha. Acho que é feliz.

O segundo foi o que mais me causou problemas, acreditem. Eu achava ele muito bonito, e por algum tempo nos demos muito bem. Mas acho que índole não é algo que se adquire, e em algum momento ele se perdeu de tudo que parecia bom. Mesmo assim eu insisti em manter qualquer tipo de contato porque achava que precisava da aprovação dele. Essa dor me durou nove anos. O namoro durou dois. Façam as contas de quanto ele me machucou. Que eu saiba continua solteiro, e creio que fique assim para sempre.

O terceiro namorado foi a melhor pessoa que conheci na minha vida. Da boca dele só saíam palavras doces ou engraçadas. Beto era muito objetivo e sabia o que queria. Com ele passei os anos mais legais da minha juventude, porque precisávamos de pouco. Filmes, videogames, guitarras, cervejas e comida. E era tudo muito saudável mesmo assim. Acho que amei ele até pouco tempo atrás. De vez em quando o vejo na rua, ou em algum show, e a imagem que aparece ali é muito diferente da que eu guardava. O olhar foi embora e ficou algo escuro e perdido. Ele também é casado e algo me diz que ele vai ser pai, apesar de não conversar com ele. Sinto saudades de conversar com o Beto.

O quarto e último namorado entrou e saiu rapidamente da minha vida e nem mereceria ser recordado se não tivesse me estragado tanto. Ficamos por seis meses juntos somente, e isso vai fazer três anos. Foi com ele que dividi uma casa e uma experiência que me faria descrer de qualquer manifestação de amor. Bebíamos bastante, brigávamos de dois em dois dias regularmente, e éramos extremamente agressivos um com o outro. Eu perdia o controle e dizia coisas que condessa Bathory aprovaria. Ele se irritava e era incompreensível, o que o fazia beber mais ainda. A brincadeira de Syd e Nancy teve fim quando em dezembro de 2007 ele me espancou por repetidas horas sem que eu conseguisse reagir. Desde então não tive mais ninguém e não acredito em amor devoto. Acho que hoje ele mora com uma mulher.

Fora isso, foram mortes na minha família que desestruturam nossas vidas até hoje. Meu avô, que era extremamente próximo a nós, faleceu em 2006, mesmo ano em que perdi meu padrasto, meu amado Magro, a quem nunca chamei de pai, mas que certamente era muito mais do que isso. Daria tudo pra me sentar no colo dele e ouvir aquela voz grossa de novo. Minha mãe sofre muito com isso até hoje, e tenta viver a vida como pode. Ela se vira muito bem, devo dizer. Não existe mulher como ela, eu jamais serei metade do que ela é.

Tenho também um pai alcoólatra que não cuidou de mim e do meu irmão como deveria, e muito menos dele. Hoje ele tem cirrose e apesar de ter 57 anos, caminha muito mal e a capacidade cognitiva dele está altamente prejudicada. Parece um velhinho, e por ele sinto um misto de pena com raiva. Nunca nos apoiou, nunca nos ajudou. Mas também nem sei se poderia. É um homem orgulhoso que de tanto orgulho virou o oposto do que imaginava para si. Acho triste.

Minha vida toda foi de excessos e nunca soube fazer nada pouco. Muito braba ou muito feliz, muito amor, muita risada e também muito álcool, muito cigarro e muita experimentação. Isso teve conseqüências constantes em meus círculos, em meus rendimentos, em minhas escolhas. E foi principalmente por isso que todos meus problemas foram causados. A responsabilidade é inteiramente minha. Apesar de todo mundo achar a coisa mais hype do mundo, em 2008 fui diagnosticada como portadora de transtorno bipolar. Não é engraçadinho, nem motivo para sair declarando isso por aí como todo mundo faz, mas foi bem esclarecedor. Muito do meu comportamento era tido como personalidade forte. Os remédios receitados vieram dizer o contrário e eu fiz um tratamento breve que me fez jogar todos os comprimidos longe. O psiquiatra havia informado que a medicação seria por toda a minha existência e eu detesto depender de qualquer coisa. Decidi aprender a conviver comigo. Com sorte, os outros aprendem também.

Acho que esses são meus maiores problemas. Fora tudo isso, tenho ainda a família que aqui permanece, minha mãe e meu irmão, um companheiro que respeito e admiro demais. Alguns amigos, muito bons por sinal, que me apóiam e me ajudam em qualquer situação. Não enlouqueci por causa deles. Foi por causa deles que parei de beber em janeiro e por querer saber como é encarar a realidade sem nenhuma dose de ebriedade. E vou dizer, não foi fácil, não é fácil.

O mundo é muito mais escuro quando não podemos nos segurar em nada que nos tire o chão. Aliás, o chão é duro e sujo. Mas quando olhamos pra cima compensa, e compensa tanto...

Escrevi tudo isso, e muitas coisas pela primeira vez, porque acho que nenhum desses problemas vai importar em breve.

Mudança, violência, morte, abandono são sentimentos que aos poucos se dissiparão aqui porque só terei lugar para o que é bom e só me preocuparei com o que vale. É que estou grávida e em mais ou menos sete meses terei um filho em meus braços. Acho que isso resume todas as linhas acima como merda.

A gravidez veio totalmente inesperada e meu filho não foi concebido de uma relação de amor. Foi uma manhã tranqüila. Eu descobri quase dois meses depois que já vivia algo em mim, e essa descoberta veio com muita surpresa, choro, medo, mas em nenhum momento arrependimento.

Muito desses sentimentos permanecem aqui comigo, mas dividem espaço com a ansiedade, alegria, expectativa, preenchimento. Entendam, eu sou o oposto do protótipo de mãe. Sou irresponsável, não me cuido, gosto de dormir, gosto da noite, sou preguiçosa, não sou saudável, e principalmente, sou solteira.

Não tenho qualquer tipo de relação com ninguém há quase três anos, e o que gerou a gravidez foi um acaso. Enfim, o acaso é meu amigo e não lidou muito bem com o fato. Diz que não é o momento adequado e sabe, tell ME about it. Me formo esse ano na faculdade, estou muito sem dinheiro, não tenho perspectiva profissional, mas nem por isso vou deixar de ter esse filho, porque ele escolheu vir agora. A coincidência, ou a casualidade, chamem como quiserem, mas jamais chamarei de azar.

Acho que de toda a situação é a única coisa que incomoda. Imaginar que meu filho crescerá sem pai, e por motivos tão infantis. Gostaria que ele se importasse mais com a situação, com o que me cerca, e não, não é por atração ou amor. Repito que isso não existe nem nunca existiu entre nós. Mas quando se conhece uma pessoa há mais de 10 anos a atitude que esperamos é outra. Espero que tudo se encaminhe para o melhor.

E fora isso, posso dizer que estou nervosa, mas feliz. Algo cresce dentro de mim e vai mudar minha vida e meus dias para sempre. Vou ter uma razão para andar sempre de chinelos para não me gripar. Se antes eu dava tão pouca bola para mim, o cuidado agora é redobrado. Porque quero viver para ele. Porque quero viver com ele. Tenho certeza que em pouco tempo, todas as palavras que relatei no início serão consideradas ridículas perto do tamanho do amor que sentirei por essa criança. Agora eu lido com a vida. E não é só a minha.