22 dezembro 2008

deliciosamente surpreendente.

adoro ser surpreendida. ainda mais por pessoas especiais.

"Engraçado", tu dizes, "tua dor sorri como a minha". Fazes-me lembrar de todas as mulheres bonitas nas páginas sob minha cama de adolescente. Fazes-me pensar em todas as belezas que se tornaram feias sob o peso do meu corpo, vergadas pela minha alma. É nas trincheiras de carne destes dias que guardo aqueles anos roubados. Meu desejo em riste te denunciou este novo assalto; a tua rendenção está dentro da minha pele, e tua língua parece saber disso.

09 dezembro 2008

a canhota [2003]

a mão que toca o controle remoto é a mesma que toca a vagina úmida da menina. é a mesma que acende o cigarro e a mesma que apaga o que ela escreve.

a mão procura cera em seus ouvidos, a mão com unhas despreocupadas, a mão que se embaraça nos problemas é a mesma que enrola os cabelos sujos.

a mão é esquerda e não consegue controlar-se. a mão que te tocava, com todo teu suor, a mão que procurava a solução pra tudo, a mão que tanto seguraste, a mão que foi beijada por velhos tarados, a mão que me levou a ti.

é a mesma que segura o punhal, procurando colar o frio à minha alma.

a aspirina. [2003]

A noite custava a ceder.

Passava desapercebido, entre vozes murmurantes e passos descompromissados. Fingia um certo vício. Apesar de sua aparente morbidez, de quando em quando demonstrava interesse na lua. A lua efervescia.

Queria, queria prestar atenção nas palavras dela, queria toca-la, mas seu riso gelado era a única coisa que conseguia mostrar. Deixava apenas a ilusão de uma mão fina em um seio murcho da menina que tanto amou. Ela falava, e como falava. Mas a lua efervescia. Ah, como queria...

Queria dizer-lhe, queria que todos vissem que não se transformara em um simples disfarce. Há muito havia desistido de sentir. A lua efervescia.

Seus dedos mirrados continuavam no seio da menina. Mas não achava o sangue. Aquele sangue necessário a qualquer regalia. O sangue que não fervia, o sangue que permanecia inerte. Cuspia sem notar, catarro verde e decrépito. Penava pela indiferença, e lá estava, a boca lhe dando atenção. Infundado deleite. Queria nada além da profundeza de um moribundo, mas acabou como um detalhado inseto.

Espaçava o olhar da menina, a menina pedia, a menina queria, a menina sabia chupar também, era só querer. Mas a lua efervescia. Indagava no silêncio como teria tornado a sensação privada em absorção. Lá estava, a menina. A menina, que já conhecia, a menina que aprendeu a conhecer, ela devia ser profunda, ele sabia. Devia gostar de todas as inutilidades pertinentes ao seu gosto peculiar, devia saber da magia cálida de um bom vinho, devia sentar-se a contemplar o nada em sua companhia. Mas a lua efervescia.

Instantaneamente lembrou-se do tempo em que restavam chamas em sua cama. Dos cheiros, do revérbero de momentos desusados. Deu adeus ao romance, sobraram os fétidos dedos no seio murcho da menina que não mais resistiu. A lua efervescia.

Naquela noite, cantou caído no cio dos animais. Assim, a lua efervesceu.

01 dezembro 2008

para a faculdade: A vida antipática da mulher moderna

É definitivamente maçante ter que ficar agüentando todos os dias um bando de babacas, homens e mulheres, definirem o quão importante é o papel feminino em grandes corporações, universidades, e sociedade. É realmente um saco, já que toda e qualquer representante do sexo dito frágil poderia escrever um livro trágico seguido de uma comédia enfadonha. São perdas irreparáveis, recomeços complexos, que se contrastam com gozadas fingidas e risadas intermináveis em mesas de bar.

Todo mundo tem uma história, e nada tem de brilhante nisso. Mas mesmo assim, parece que, a cada minuto, esperamos que alguém descubra a nossa. E se encante. Agora, com a era web 2.0, qualquer um é aspirante a Bridget Jones ou Carrie Bradshaw, escangalhando sentimentos por tudo quanto é lugar, sem perguntar se podem invadir; já estão invadindo, já estão dentro de nós, ou desesperadamente tentando entrar.

Deveria ser sobre esse papel, da humana erroneamente insegura, que deveriam tratar livros de quem mexeu no queijo de quem, e de como somos venusianas ou marcianas, nunca sei. Aquela que raramente tem tempo de sair com o cabelo ajeitado, as unhas pintadas, e precisa botar banca em cima de um salto e chegar sóbria no serviço, fingindo atenção. Aquela que fica que nem uma imbecil trabalhando o dobro dos outros porque é responsável demais, que sai tão estafada do expediente que só a santa cerveja ajuda, principalmente se conjugada com gargalhadas e algumas amigas. Que chega em casa, toma banho, vê novela, e chora escondida de raiva por não ter ninguém para contar sobre o artigo que leu, a comida que comeu, o estranho que conheceu.

Enfim, deveria ser sobre mim. Porque não? Debatam à vontade como sou maravilhosamente competente em tudo que faço e mesmo assim não atraio coisa que preste. Viram como espírito 2.0 domina? São necessárias poucas linhas para que cada um queira fazer história com estórias.

Só se faz necessário que compreendam, a antipática vida da mulher moderna. Nada tem de moderna, continua tudo a mesmíssima coisa, porém, o tempo que ficávamos batendo bolo, ficamos batendo pernas nas ruas escaldantes do centro. E ainda voltamos para casa para bater o bolo.

Damas-da-noite-domésticas-executivas-gostosas-solteiras-infelizes-sorridentes. Não podemos mostrar sensibilidade, senão o mundo nos devora, se mostramos, o mundo convalesce e pensa: só podia ser. Mas não mulher. Humana.