A noite custava a ceder.
Passava desapercebido, entre vozes murmurantes e passos descompromissados. Fingia um certo vício. Apesar de sua aparente morbidez, de quando em quando demonstrava interesse na lua. A lua efervescia.
Queria, queria prestar atenção nas palavras dela, queria toca-la, mas seu riso gelado era a única coisa que conseguia mostrar. Deixava apenas a ilusão de uma mão fina em um seio murcho da menina que tanto amou. Ela falava, e como falava. Mas a lua efervescia. Ah, como queria...
Queria dizer-lhe, queria que todos vissem que não se transformara em um simples disfarce. Há muito havia desistido de sentir. A lua efervescia.
Seus dedos mirrados continuavam no seio da menina. Mas não achava o sangue. Aquele sangue necessário a qualquer regalia. O sangue que não fervia, o sangue que permanecia inerte. Cuspia sem notar, catarro verde e decrépito. Penava pela indiferença, e lá estava, a boca lhe dando atenção. Infundado deleite. Queria nada além da profundeza de um moribundo, mas acabou como um detalhado inseto.
Espaçava o olhar da menina, a menina pedia, a menina queria, a menina sabia chupar também, era só querer. Mas a lua efervescia. Indagava no silêncio como teria tornado a sensação privada em absorção. Lá estava, a menina. A menina, que já conhecia, a menina que aprendeu a conhecer, ela devia ser profunda, ele sabia. Devia gostar de todas as inutilidades pertinentes ao seu gosto peculiar, devia saber da magia cálida de um bom vinho, devia sentar-se a contemplar o nada em sua companhia. Mas a lua efervescia.
Instantaneamente lembrou-se do tempo em que restavam chamas em sua cama. Dos cheiros, do revérbero de momentos desusados. Deu adeus ao romance, sobraram os fétidos dedos no seio murcho da menina que não mais resistiu. A lua efervescia.
Naquela noite, cantou caído no cio dos animais. Assim, a lua efervesceu.
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