21 junho 2009

ciano & magenta.

ontem foi ver quanto tempo o brilho do sol durava no reflexo das águas.

sentou-se e não calculou exatamente os minutos, somente deixou a claridade invadir seus pensamentos enquanto observava o movimento dos raios dançando nas poucas ondas.

e assim, imaginava, se talvez, aquelas horas não significassem também o período que marca toda existência de alguns parcos sorrisos. faz muito que não sorria como deveria. sempre de um jeito meio torto, cansado. nunca parou, é verdade. mas com o passar dos anos, sua boca não abria mais espontaneamente para o que quer que fosse. a opinião já era muda e o silêncio não era companhia; era a personificação de tudo que sentia.

ele ficou ali, parado, pensando se o sol talvez não estivesse brincando com seus olhos na mistura de cores que havia se tornado o cenário. queria todas aquelas matizes, todos os tons em sua vida. ao constatar que o espetáculo durava não mais que quarenta minutos, decidiu. p&b era muito bonito. mas em alguns momentos a vivacidade exacerbada deveria participar.

18 junho 2009

Sempre foi.

nunca mais perco.
nem a poesia.
obrigada.

*****

"Que a lágrima que te beija os lábios
Mais que dor, seja vingança

Que o ódio que te embaça os olhos
Mais que fogo, seja aço

Que o vazio que te esfacela o peito
Mais que medo, seja abrigo

Que a fera que te vela o sono
Mais que lobo, seja um anjo

Que o toque que te faz tremer
Mais que carne, seja amor

Que a carícia que tuas mãos orquestram
Mais que um gesto, seja tudo

E mais que tudo, seja minha"

08 junho 2009

Valiosidade

Que de versos e prosas incansáveis
Entre momentos descabidos de dor
Encontra-se em linhas brancas
Da idiossincrasia o valor.

São palavras mais fortes que aço
Combinados em gestos delicados da paixão
Que o corpo gelado supera
A agonia de sujeitar-se ao não.

E em caminhos opostos que encaixam
Pureza e maldade que de ti provém
É que vejo ainda o quanto falta
Para ilusão nunca ir tão além.

O que era previsível já não pertence ao incômodo
De amores presos e sorrisos tímidos
São representações de uma vida
Que começa em sonhos mordidos.

01 junho 2009

slow ride.

tentou concentrar-se naquela noite. seria uma novidade: ficaria calada realmente escutando o que o companheiro teria a dizer. sem aquela metodologia conhecida de tantos anos, de encarar o copo e concordar com tudo, esperando o momento de falar sem parar. quis fazer diferente, saber o que o outro tinha a acrescentar, invés de descambar meias verdades, inteiras mentiras. não queria agradar tampouco ser agradada. queria partilhar. não, queria sentir-se parte da decoração. que talvez fosse o caminho mais seguro para evitar os futuros afastamentos. aquelas decepções que sempre persistiam. de ambas as partes.

eis que, sem armamento tecnológico, sem bugigangas, somente o inseparável enrolar de cabelos nos dedos, encontraram-se. ela sentiu aquele leve arrepiar, que sente sempre diante de qualquer novidade. ele era novidade, estava ali na frente dela, afinal. e ela ouviu. de verdade. ouviu e absorveu tudo que ele falava, bebia o cotidiano daquela pessoa na frente dela, ao lado dela. e era bom. bom ser tratada como pessoa, como mulher. com todos os motivos para ser menosprezada. como sempre. não era mais musa, não era mais espelho, não era mais questão de não suprir. porque isso simplesmente não importava.

de qualquer forma, tentava procurar algum sinal. algum sinal de embriaguez nos olhos pequenos do locutor. que interlocutor não era mais admissível. tentava adivinhar em que cores, em que sonhos aqueles olhos haviam passado. sim, é verdade que agora estava apenas como ouvinte, mas isso não impedia que ela tentasse desvendar o que se escondia por trás da carapuça de qualquer um que aparecesse a sua frente. veja bem, são anos de decepções constantes e o simples fato de estar redescobrindo prazeres não a fazia santa da noite para o dia. ainda tinha a mesma opinião a respeito de tudo.

somente os muito burros ou muito inteligentes mudam, leu ainda naquele dia. ela estava na primeira categoria, definitivamente. nem quis saber se não entendia, se palavras estavam sendo ponderadas. sentimentos estavam chegando e saindo a todo momento. queria os olhos, procurava os olhos.

então, sutilmente percebeu: alguma profundidade que denunciava não a idade, não a quantidade de idéias conservadoras e retrógradas. mostrava a diferença. sem medo, subiu. e sentir o vento bater era só o que precisava.