tentou concentrar-se naquela noite. seria uma novidade: ficaria calada realmente escutando o que o companheiro teria a dizer. sem aquela metodologia conhecida de tantos anos, de encarar o copo e concordar com tudo, esperando o momento de falar sem parar. quis fazer diferente, saber o que o outro tinha a acrescentar, invés de descambar meias verdades, inteiras mentiras. não queria agradar tampouco ser agradada. queria partilhar. não, queria sentir-se parte da decoração. que talvez fosse o caminho mais seguro para evitar os futuros afastamentos. aquelas decepções que sempre persistiam. de ambas as partes.
eis que, sem armamento tecnológico, sem bugigangas, somente o inseparável enrolar de cabelos nos dedos, encontraram-se. ela sentiu aquele leve arrepiar, que sente sempre diante de qualquer novidade. ele era novidade, estava ali na frente dela, afinal. e ela ouviu. de verdade. ouviu e absorveu tudo que ele falava, bebia o cotidiano daquela pessoa na frente dela, ao lado dela. e era bom. bom ser tratada como pessoa, como mulher. com todos os motivos para ser menosprezada. como sempre. não era mais musa, não era mais espelho, não era mais questão de não suprir. porque isso simplesmente não importava.
de qualquer forma, tentava procurar algum sinal. algum sinal de embriaguez nos olhos pequenos do locutor. que interlocutor não era mais admissível. tentava adivinhar em que cores, em que sonhos aqueles olhos haviam passado. sim, é verdade que agora estava apenas como ouvinte, mas isso não impedia que ela tentasse desvendar o que se escondia por trás da carapuça de qualquer um que aparecesse a sua frente. veja bem, são anos de decepções constantes e o simples fato de estar redescobrindo prazeres não a fazia santa da noite para o dia. ainda tinha a mesma opinião a respeito de tudo.
somente os muito burros ou muito inteligentes mudam, leu ainda naquele dia. ela estava na primeira categoria, definitivamente. nem quis saber se não entendia, se palavras estavam sendo ponderadas. sentimentos estavam chegando e saindo a todo momento. queria os olhos, procurava os olhos.
então, sutilmente percebeu: alguma profundidade que denunciava não a idade, não a quantidade de idéias conservadoras e retrógradas. mostrava a diferença. sem medo, subiu. e sentir o vento bater era só o que precisava.
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