22 janeiro 2011

pré-filho

hoje eu deveria estar subindo em um palco, iluminada, agradecendo com sorrisos os sete anos em que passei estudando para poder finalmente colocar as mãos em um diploma que não é obrigatório.

hoje é aniversário do meu pai, aquele que me fez.

hoje é aniversário de minha madrinha preferida.

hoje é o dia do casamento de um casal de amigos muito carinhosos.

e eu to meio que aérea com isso tudo. é que amanhã nasce meu filho, aquele que eu relutei em entender o porque de querer vir logo comigo, uma pessoa que nem mulher se considera.

entendam que sou só amor por esse guri que nem vi o rostinho ainda, mas a vida era pra ser toda diferente até eu me dar conta que não sou quem decido isso.

tenho todos aqueles mesmos medos de nove meses atrás e sou provavelmente a mesma babaca há pelo menos uns cinco anos. o que mais me irrita é eu achar que mudei e posso de repente ser uma adulta fantástica que abomina uma porção de coisas que achava suficientemente boas por algum tempo.

não quero ser tachada de falsa moralista, mas é realmente difícil dar importância pra gente babaca que fica curtindo porre com quase 30 anos ou colegas que estão traumatizados porque estão saindo da faculdade e não sabem como serão as suas vidas daqui pra frente.

well, boo hoo hoo, negada.

então antes que qualquer dedinho seja levantado pra me acusar, talvez eu deva considerar o fato de que uma gravidez dura certo tempo justamente pra que tanto nosso corpo quanto nossa mente possam se adaptar com todas as mudanças que surgem.

agora por exemplo sinto um nojo de cigarro, e nem posso acusá-lo. foi meu melhor amigo por muito tempo e sinto que viver tudo assim, sem escape em um pedaço de fumaça que seja é MUITO mais difícil.

há umas duas semanas atrás, amigos de anos e conhecidos por nossos excessos, individuais ou em parceria, vieram me visitar, e eu não pude deixar de notar que rimos muito e conversamos muito e me senti bem ao lado deles sem pelo menos um gole. sem uma tensão sexual. sem nada. isso dá uma perspectiva totalmente nova para uma vida totalmente nova.

é óbvio que eu to assustada, sou só pavor quando imagino o que vem daqui pra frente, vejam bem, amanhã eu vou fazer uma cirurgia pra retirar um bebê de mim o qual vou cuidar o resto da minha vida e será a razão dos meus dias [já é btw]

e eu nao tenho medo de ficar sozinha, de nao conhecer ninguém, do que vai ser. tenho medo é de nao conseguir emprego bacana, creche decente, de ter que me mudar de cidade pra poder sustentar finalmente uma vida a qual eu fugi constantemente e agora nao troco por nada.

o thrill todo de ser adulta veio de uma vez só e não posso mais me dar o luxo de me envolver com qualquer bobagem. mesmo que elas continuem presentes aqui no meu coração. mesmo que eu ainda deseje lá no fundo toda felicidade das ficções.

tudo é torto, mas posso afirmar que nunca minha vida pensou ser tão deliciosa. que venha a ânsia por mudanças e dias em que nunca mais serão mais meus.

tanto quis ser duas e a partir de amanhã serei. meu novo mundo que dá tanto medo virá com a calma que eu mereci em todos os dias. meu filho.

caralho, eu vou ter um filho.

04 janeiro 2011

pshhhh

às vezes eu me peço silêncio, que é pra calar essa voz estúpida dentro de mim que deseja gritar. aliás, sempre eu me peço silêncio. existe um cartaz de enfermeira com a mão nos lábios aqui em algum lugar na cabeça.

de vez em quando esse cartaz sai e precisa ser pendurado em um corredor por alguns momentos, pedindo com educação que bocas sejam caladas evitando assim um conflito maior na minha sanidade. o cartaz é derrubado por carros rebaixados com som alto.

silencio, por favor. é só o que peço. já que não posso especificamente sair correndo e me atirar em qualquer banco solitário, qualquer areia no meu pé. peço silêncio porque já não lembro mais como trancar porta de quarto e ouvir música para calar. peço silêncio em uma última tentativa pra calar tudo o que minha voz balbucia aqui dentro.

eu que sempre fiz de tudo pra ser independente da maneira mais burra possível, porque achei que com empregos ruins e mesas de bar pra descompensar eu ia conseguir. mas nunca saí do plano. fiquei no caminho mais fácil, prometendo que em algum momento as coisas teriam que mudar. e elas mudaram. agora eu sou a dependente mais dependente que terá um dependente mais dependente e juntos dependeremos por muito tempo porque simplesmente não há saída a curto prazo para que possamos fazer simplesmente o que devemos ou temos vontade.

tudo na minha vida é uma grandissíssima obrigação que eu só fiz questão de desobedecer em horas torpes em vez de buscar soluções definitivas. não precisam me apontar o dedo, sei de quem é a culpa.

mas sabe, seria tudo TÃO MAIS FÁCIL se eu convivesse com GENTE NORMAL, que não se contradiz de hora em hora e por ter a cabeça tão fodida fica fodendo com a cabeça dos outros sem nem se dar conta.

é lindo e antinatural e tudo mais ter uma pessoa que te ame tanto, mas esse amor tem um custo TÃO ALTO, que a única maneira de catar trocado pra pagar isso tudo era fugindo um pouco de mim. ou pedindo silêncio.