às vezes eu me peço silêncio, que é pra calar essa voz estúpida dentro de mim que deseja gritar. aliás, sempre eu me peço silêncio. existe um cartaz de enfermeira com a mão nos lábios aqui em algum lugar na cabeça.
de vez em quando esse cartaz sai e precisa ser pendurado em um corredor por alguns momentos, pedindo com educação que bocas sejam caladas evitando assim um conflito maior na minha sanidade. o cartaz é derrubado por carros rebaixados com som alto.
silencio, por favor. é só o que peço. já que não posso especificamente sair correndo e me atirar em qualquer banco solitário, qualquer areia no meu pé. peço silêncio porque já não lembro mais como trancar porta de quarto e ouvir música para calar. peço silêncio em uma última tentativa pra calar tudo o que minha voz balbucia aqui dentro.
eu que sempre fiz de tudo pra ser independente da maneira mais burra possível, porque achei que com empregos ruins e mesas de bar pra descompensar eu ia conseguir. mas nunca saí do plano. fiquei no caminho mais fácil, prometendo que em algum momento as coisas teriam que mudar. e elas mudaram. agora eu sou a dependente mais dependente que terá um dependente mais dependente e juntos dependeremos por muito tempo porque simplesmente não há saída a curto prazo para que possamos fazer simplesmente o que devemos ou temos vontade.
tudo na minha vida é uma grandissíssima obrigação que eu só fiz questão de desobedecer em horas torpes em vez de buscar soluções definitivas. não precisam me apontar o dedo, sei de quem é a culpa.
mas sabe, seria tudo TÃO MAIS FÁCIL se eu convivesse com GENTE NORMAL, que não se contradiz de hora em hora e por ter a cabeça tão fodida fica fodendo com a cabeça dos outros sem nem se dar conta.
é lindo e antinatural e tudo mais ter uma pessoa que te ame tanto, mas esse amor tem um custo TÃO ALTO, que a única maneira de catar trocado pra pagar isso tudo era fugindo um pouco de mim. ou pedindo silêncio.
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