11 setembro 2010

20 anos blues


Hoje acordei com uma vontade incomum de ser adolescente. Que eu nem lembro mais como é, mas acho que tinha algo a ver com muita reclamação da família, mais louças para lavar do que hoje (porque éramos em maior número) e fantasiar com o futuro durante a ociosidade.

Tive vontade de me sentir irresponsável como fui minha vida inteira e provavelmente como ainda seja, mas sem culpa. Os únicos culpados eram os desejos. O que me tornei hoje certamente não era o que eu pensava em ser, ou talvez seja exatamente o que eu me reservei. Uma preguiça sem fim, uma vontade de crescer tão grande que quando o crescimento chegou, eu nem senti.

Sinto uma dor, me dou conta que quase tudo em mim é falso, com exceção do que só eu sei. Vi um filme mangolão agora de tarde que me fez pensar que odeio que me abracem. Sabe quando só precisamos de um abraço? eu preciso evitar todos. Quando alguém me oferece, eu aperto, toco, mas quero me livrar logo daquilo. Ai que se eu decido então ficar deliberadamente abraçada até minha dor se amenizar eu caio. Eu nunca caí.

Todos os surtos que eu tive até hoje foram impetuosos e até porque não dizer, controlados. Que sinto pena de quem está comigo e começa a sofrer com tudo que eu possa vir a falar. Aí de vítima passo a ser causadora. Mas eu me acostumei. No fim tudo se ajeita e me sobra sempre o choro abafado, aquele trancado na garganta, que acho que ninguém presenciou.

Com tudo que vem me acontecendo agora, admiro minha paunocuzice de ficar deitada na cama me distraindo com pensamentos bobos, sem me dar conta que esses dias são raros e vão acabar.

Tanta coisa me magoa, mas as pessoas parecem não perceber isso. Semana passada contei para um conhecido que estava grávida, e ele, incrédulo, dizia não acreditar em uma palavra minha. "Capaz," disse ele "logo tu que está sempre brincando com tudo. Vou te dizer, vai ser uma péssima jornalista, ninguém acredita em ti".

É isso que 26 anos de personalidade escandalosa me reservaram; a fama de mentirosa. Quer dizer, considere-se a ré culpada, por constantemente falar bobagens que distraiam a todo esse povo que consegue dela o circo.

Que bom, estou no caminho errado. Se fosse bonita, poderia ser atriz.

Uma imbecil esses dias, ao saber que espero um filho perguntou imediatamente: "Mas tu está casada por acaso?"

Não.

E por mais que isso seja tudo muito moderno muito bonito muito bacana muito corajoso a verdade é que me sinto uma merda por ter um sentimento desses. Então eu terei um filho em meus braços daqui alguns meses. Vocês acham, seus idiotas, que é deliberada a forma que essa criança foi concebida e será criada? Vocês acham, por algum momento, que eu não queria toda a porra da cerca branca em volta da minha casa, cozinha com balcão grande e marido ouvindo meu dia e eu o dele? Vocês não sabem nada, e se a retrógrada sou eu por pensar assim, bem, FODAM-SE.

É muito óbvio que eu preferia sim ter engravidado de alguém que eu ame e me amasse reciprocamente, que ele me acompanhasse nos exames e tentasse ver por aquelas manchas cinzas como nosso filho vai ser, que fizéssemos churrascos com nossos amigos, que eu estivesse trabalhando para juntar dinheiro e montar um quarto bonito para meu filho com todas aquelas baboseiras de móbiles pendurados em cima do berço.

Mais ou menos assim. As crianças correndo em volta do pátio, enquanto o churrasco ia sendo assado, e num canto, com algumas cervejas, meus amigos e eu discutiríamos como as músicas mudaram, como as crianças cresceram, e quais as escolinhas são melhores. Até que o assador trocasse o espeto pelo violão e entoasse um Graforréia qualquer que todos cantariam emocionados. Os filhos de todos nos olhariam e fariam cara de reprovação, como se a música fosse ruim e ultrapassada.

No fim do dia, meu filho dormiria no banco de trás do carro, meu marido e eu chegaríamos em casa comentando sobre como nossos amigos estão. Eu ligaria para minha mãe, para saber dela, e prometeria uma visita para logo.

Lembro de ter dito que não acreditava no amor. E realmente não acreditava. Aí decidiu crescer dentro de mim algo que não pode ser descrito de tanto amor que existe. Um amor que explode e explode tanto tanto. E por explodir assim, por ser tão grande assim que gostaria de dividi-lo com alguém. Porque querendo ou não, o destino já está feito e não inclui uma churrasqueira nos fundos. Espero não esquecer a comida no forno sozinha.