24 abril 2008

não sou platônica.

eis que espero. por uma, duas, três horas. sentada no frio, sozinha.
com a companhia de um velho livro do chico, algumas músicas cansadas, eu espero, com uma certeza que ainda não entendia.
fico calma, fico louca, fico pensando.

o que foi a mesa de tantos encontros felizes, se transformava em cenário da minha angústia. a raiva não deu lugar, não poderia. que, depois de certo horário, com ninguém em volta, meio sem acreditar no que acontecia, cena de cinema europeu, e de filme ruim, decido me levantar e ir embora.

"alguma coisa aconteceu" eu penso. ele nunca faria isso COMIGO. vou para casa, me irrito por uns quarenta minutos e fico grudada no telefone. nada virtual, nada presencial. decido beber então. em um bar sujo, com pessoas sujas e músicas sujas, presencio briga de faca ao meu lado e nem me assusto. ele me protegeria, eu penso. foda-se, ele deve ter morrido. e bebo mais ainda.

chego em casa de madrugada, faço comida, durmo sem sentir. alguma coisa aconteceu, persisto.
acordo pensando: quem sabe hoje? mas o hoje não chega nunca, notícia não chega nunca, descaso é algo inimaginável, e eu cogito:
o iml.

vou para o tão lido obituário, onde sempre procurei o nome dele. mas o nome não aparece. busco notícias de desgraças e violências, mas nada surge. tento esquecer, mas sigo agoniada. vejo um romance bobo e sigo agoniada. recebo amigos em casa, e sigo agoniada. saio para dançar e beber, e sigo agoniada.

e assim foram os restos dos dias, quando esperei contato dele, mas algo me deixava impedida de pensar que era simplesmente uma opção. afinal, eu não era opção. me considerava a certeza.

e hoje, lendo tudo aquilo, só me resta a decepção. ele era meu fundo, meu âmago, aquilo que sentia há muito tempo. com ele era diferente, ele é diferente, eu sou igual, eu sou eu, e que merda, sempre amei.

vi que meu único refúgio sumiu, e que não parece querer surgir novamente. não terei mais filhos, a cozinha não será mais suja nem o sofá rasgado. não teremos romances diários, discussões acaloradas e pulsar de corpos unidos. não mais, nunca. nunca mais.

e hoje percebo; ele morreu sim no dia 18. morreu para o mundo, morreu para a esperança, e talvez, talvez, ele que tenha se matado pra mim.

Um comentário:

vênus disse...

sabe, há tempos eu não via uma história com fim tão imprevisível. admito, eu tinha esperanças de um final feliz. hehe.
quem te viu no dia 18, sabe que o que tu tá escrevendo é tão profundo... talvez agora eu entenda o âmago da manu. lindo texto, lindo sentimento, apesar de um pouco triste.
mas enfim. é a vida. nem sempre ela espera por nós. nem ela, nem os outros.