eis que espero. por uma, duas, três horas. sentada no frio, sozinha.
com a companhia de um velho livro do chico, algumas músicas cansadas, eu espero, com uma certeza que ainda não entendia.
fico calma, fico louca, fico pensando.
o que foi a mesa de tantos encontros felizes, se transformava em cenário da minha angústia. a raiva não deu lugar, não poderia. que, depois de certo horário, com ninguém em volta, meio sem acreditar no que acontecia, cena de cinema europeu, e de filme ruim, decido me levantar e ir embora.
"alguma coisa aconteceu" eu penso. ele nunca faria isso COMIGO. vou para casa, me irrito por uns quarenta minutos e fico grudada no telefone. nada virtual, nada presencial. decido beber então. em um bar sujo, com pessoas sujas e músicas sujas, presencio briga de faca ao meu lado e nem me assusto. ele me protegeria, eu penso. foda-se, ele deve ter morrido. e bebo mais ainda.
chego em casa de madrugada, faço comida, durmo sem sentir. alguma coisa aconteceu, persisto.
acordo pensando: quem sabe hoje? mas o hoje não chega nunca, notícia não chega nunca, descaso é algo inimaginável, e eu cogito:
o iml.
vou para o tão lido obituário, onde sempre procurei o nome dele. mas o nome não aparece. busco notícias de desgraças e violências, mas nada surge. tento esquecer, mas sigo agoniada. vejo um romance bobo e sigo agoniada. recebo amigos em casa, e sigo agoniada. saio para dançar e beber, e sigo agoniada.
e assim foram os restos dos dias, quando esperei contato dele, mas algo me deixava impedida de pensar que era simplesmente uma opção. afinal, eu não era opção. me considerava a certeza.
e hoje, lendo tudo aquilo, só me resta a decepção. ele era meu fundo, meu âmago, aquilo que sentia há muito tempo. com ele era diferente, ele é diferente, eu sou igual, eu sou eu, e que merda, sempre amei.
vi que meu único refúgio sumiu, e que não parece querer surgir novamente. não terei mais filhos, a cozinha não será mais suja nem o sofá rasgado. não teremos romances diários, discussões acaloradas e pulsar de corpos unidos. não mais, nunca. nunca mais.
e hoje percebo; ele morreu sim no dia 18. morreu para o mundo, morreu para a esperança, e talvez, talvez, ele que tenha se matado pra mim.
Um comentário:
sabe, há tempos eu não via uma história com fim tão imprevisível. admito, eu tinha esperanças de um final feliz. hehe.
quem te viu no dia 18, sabe que o que tu tá escrevendo é tão profundo... talvez agora eu entenda o âmago da manu. lindo texto, lindo sentimento, apesar de um pouco triste.
mas enfim. é a vida. nem sempre ela espera por nós. nem ela, nem os outros.
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